• Felipe Marticorena

Uma visão histórica: por quê comemos o que comemos?


Por quê comemos o que comemos? Se mesmo no mundo globalizado ainda existem diferenças na identidade alimentar dos países, estados e até mesmo cidades, imagine em meados do ano de 1500 quando os portugueses chegaram e se depararam com os nativos. Sabe-se que grande parte da nossa rica e saborosa cultura alimentar se deve ao rebenque entre o que os nativos consumiam, com o que foi trazido por portugueses, espanhóis e franceses, com o toque da comida que os escravos “adaptaram”. Vamos conhecer e apreciar o que nos foi deixado de relato sobre o tema.


Os Primeiros Vestígios


As histórias só foram possíveis graças aos ‘cronistas’ que acompanhavam as grandes viagens, se destacando o famoso Pero Vaz de Caminha, que não deixou em branco o relato que será parafraseado à seguir: O primeiro contato dos selvagens com a culinária Europeia foi exatamente na sexta feira, 24 de abril de 1500, quando portugueses conduziram um par de tupis à Nau Portuguesa, assim chamavam-se as embarcações, lhes oferecendo peixe cozido, pães, mel, figo assado e vinhos.


Os nativos chegavam até cuspir fora como maneira de protesto e aversão ao que consumiam. No entanto, dois dias depois a “aculturação”, ou a fome, bateu à porta e ambos os nativos já consumiam a comida que lhes ofereciam.

Logo depois os papéis se invertem e o primeiro relato que existe sobre a alimentação está exatamente nessas palavras: “[…] muito inhame e outras sementes, que na terra há eles comem […]”.


A Base da Alimentação


Mandioca. Nos diversos livros, artigos e vestígios, não há alimento mais importante que este para os nativos ao longo de toda costa “Brasiliense”. Cada família tinha sua própria plantação e a preparavam de vários modos. Trituravam as raízes nas pedras, espremiam para que saísse todo o suco e com a farinha restante faziam bolos finos e/ou misturavam em água. Também fermentavam as raízes frescas e a deixavam secar na fumaça em cima de um fogo, além de torrá-las como uma maneira de conservar por até um ano o alimento.


O álcool é algo quase que evolutivo do ser humano. Onde existiu sociedade, existiu o consumo de álcool de alguma maneira. Com os nativos não era diferente. As mulheres da aldeia preparavam uma bebida chamada Cauim, e adivinhe do que era feito? Isso mesmo. Mandioca. As raízes de mandioca eram cozidas e em seguida mastigadas pelas meninas (sim, mastigadas). O mastigado era colocado em panelas com água e enterrados até que se fermentavam. Com isso se embriagavam.


Mas e as Proteínas?


Inteligentes e evoluídos, os selvagens caçavam diversos peixes, sobretudo tainhas, e animais em terra. Com isso faziam uma espécie de farinha de peixe e carne. Assavam a proteína sobre fumaça até que se secava completamente, depois desfiavam o alimento e tornavam a torrar. Ao passar por uma peneira o resultado era um pó, usualmente agregado à farinha de mandioca. Relatos europeus indicam que o sabor era muito bom e se conservava por um longo período.


Parte dos Tupis praticavam o chamado “Banquete Antropofágico”. Isso mesmo, eram eventualmente canibais e comiam seus inimigos como símbolo de poder. Este episódio era acompanhado de um ritual envolvendo a bebida Cauim e preces para as entidades que eles acreditavam (Leia o artigo – Turnover proteico e consumo de proteínas).


Utilizavam temperos?


Certamente grande parte da população atual não se imagine sem glutamato monossódico, corantes e aromatizantes artificiais. De maneira similar eram os Índios com a pimenta verde, a qual plantavam, colhiam e agregavam às carnes (inclusive humanas). A pimenta, no entanto, era mais do que um tempero.Também era utilizada como arma. Em diversas histórias está descrito que os selvagens queimavam os arbustos nas proximidades dos acampamente e embarcações, a fim de criar uma fumaça “tóxica” para afastar os inimigos. E funcionava.


Já o sal foi copiado dos franceses, principalmente pelos Tupinambás. Conseguiam o sal a partir do comércio, mas aquelas com aldeias mais afastadas acabam por extrair das palmeiras. Sobre a temática do sal, Hans Staden, um alemão com duas expedições ao Brasil, relatou em 1557:


“Há muitas tribos entre os selvagens que não comem sal. No entanto, quem tem o hábito de comê-lo em grande quantidade não vive muito tempo.”


As especiarias foram motivos de guerras, principalmente por seu valor em ouro: 60 kg de pimenta valias 52 g de ouro. A noz-moscada e a canela tinham preços similares e 1 kg era equivalente à 10 g de ouro. Por fim, o cravo custava 7 g de ouro por kg.


Alimentação nas Embarcações


A dieta nos barcos era pobre. Os navegantes tinham que passar meses recebendo uma ração constituída de biscoitos duros de água e sal, 1,5 litros de água que quase sempre estava contaminada e 1,5 litros de vinho por dia. Como proteína recebiam 15 kg de carne salgada por mês. Frutas e outros alimentos era inimaginável, o que causou diversas mortes por Escorbuto, principalmente em decorrência da falta de vitamina C. Estudos estimam que 3.500 kcal eram ofertadas diariamente, o que para nossa vida sedentária para muito, mas para o trabalho duro deles era pouco.


Por quê comemos o que comemos? Para saber mais sobre o assunto

Duas Viagens ao Brasil — Hans Staden

História da Alimentação no Brasil — Luís da Câmara Cascudo

Brasil: Terra à Vista! — Eduardo Bueno

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